Vida = Arte

Texto de Felipe Scovino publicado no catálogo da exposição Cabelo Apresenta Mc Fininho e Dj Barbante no Baile Funk (Gentil) Carioca.

imagem_fininho_p_site_4

Vida = Arte

por Felipe Scovino

As práticas colaborativas e coletivas têm sido uma constante nas últimas duas décadas, devido sobretudo a um sintoma das artes visuais: a sua capacidade de repensar e requalificar a todo instante suas posições estéticas e políticas. Se por um lado as artes visuais avançam na formatação de diálogos com outros territórios e disciplinas, por outro tende a atravessar fronteiras e pôr em dúvida as articulações e aparições provenientes de suas próprias experimentações. Chamo a atenção para esse último ponto, porque nessa exposição estamos diante do trabalho de um artista que sempre dialogou de forma harmônica entre dois campos artísticos (a música e as artes visuais) estabelecendo mais pontos de contato do que diferenças, e de um curador, que apesar de ter um trabalho sólido como artista nunca se privou de atividades de exercício da crítica (cito como exemplo sua passagem como editor das revistas item e o Carioca).

Apesar de muitas dessas citadas práticas incluírem colaborações entre artistas, essa exposição envolve um projeto onde artistas colaboram entre si em torno de uma cultura que sofre movimentos pendulares quanto a sua exibição midiática e de revalidação cultural para os, digamos assim, menos afortunados. O funk, apesar de nos últimos anos ter deixado a periferia para ser meio e produto, por exemplo, de grandes organizações publicitárias e televisivas, ainda é objeto de preconceito (como já dizia MC Marcinho em Som de preto: “é som de preto/de favelado/Mas quando toca ninguém fica parado”). É curioso que MC Fininho, o alter-ego de Cabelo (por sua vez um apelido), usa do conceito de espetáculo para erigir um show/disco/performance musical onde se manifestam modelos tangíveis de sociabilidade e de um modo de produção que apesar de ser artesanal, precário, com ares de gambiarra, é potente e – ambiguamente – sofisticado, dois campos que são fortemente anunciados e demarcados na cultura funk, e que por conta desse processo de diluição comercial e publicitário1, tendem a serem perdidos ou deslocados, culminando no que poderíamos definir como possibilidade de perda gradativa da “aura do funk”. MC Fininho e seus colaboradores de certa maneira impõem a “velha ordem do funk”, ou um processo identitário que estaria mais próximo daquilo que cerca a ideologia e produção dessa cultura: o baile organizado para a abertura da exposição cria um mecanismo que ultrapassa a reificação das relações sociais, nos deixando a par de uma estrutura plural, polifônica e altamente potente, assim como se configura o funk.

A expressão “pôr em dúvida” que escrevi nas primeiras linhas refere-se, nesse contexto, a um artista se deslocando em direção a um personagem, e um baile que a todo o momento prescinde de ser cenário ou teatralidade para se colocar como a figura central da exposição.2 A pergunta que MC Fininho faz – como viver juntos e nos alimentarmos dessas diferenças? – nos desloca para outro território: o baile, seus convidados e imagens devem ser lidos a partir de uma perspectiva onde o artista se colocou não como “artista político” mas sim, como um artista que “faz arte politicamente”. É curioso que o baile em nenhum momento nega a condição de cultura de consumo, propaganda ou entretenimento – acusações que as próprias artes visuais sofrem – do funk. Esse aspecto da sedução é acentuado a todo o momento. porém, há uma diferença radical ao adotar essa postura. trazer a cultura da periferia para o mercado de arte não com uma embalagem espetaculosa, mas como o espetáculo que ela sempre foi. Sem falsas maquiagens e discursos acéfalos, nem representando da maneira mais ingênua e fácil as articulações e manifestações do funk, MC Fininho expõe as entranhas de uma cordialidade, de um funk talvez agressivo no discurso e na exposição de uma ideia de mundo mas profundamente sensível e afetuoso na formação desse corpo colaborativo. É nessa dubiedade entre a imagem que se faz dele e o que real- mente o funk expressa, que MC Fininho constrói e organiza seu arsenal imagético. os objetos expostos não são formas para se entender a canção ou produções “literais” daquilo que está sendo ouvido, mas a composição de uma rede, de um diálogo intermitente entre som e imagem, ou entre objeto e imaterialidade.

Se pensarmos numa função para a arte, ela reside precisamente na sua habilidade de desestabilizar e criticar as formas convencionais (ou distorcidas) de representação e identidade. Portanto, ficam evidentes nas ações colaborativas de MC Fininho (ou Cabelo) que a arte não tem, de fato, qualquer conteúdo positivo, mas é o produto de uma forma intensamente somática de conhecimento, visto que projetos como esse “nos desafiam a reconhecer novos modos de experiência estética e novas grades para pensar a identidade através de trocas densamente texturizadas, hápticas e verbais que ocorrem nos processos de interação colaborativa.” 3 O baile de MC Fininho nos convida a perceber o modo como dialogamos e vemos o outro, como reprocessamos a diferença a nosso modo, além de nos chamar a atenção para a própria troca como práxis criativa e elemento de câmbio social. Curtir o baile, portanto, é conviver com diferenças, constituir a nossa subjetividade, e num misto entre utopia e desejo, moldar um mundo melhor. Talvez de modo intuitivo já soubéssemos disso, mas nessa exposição fica evidente a proposta de tornar aparente que a manifestação e apropriação da diferença é parte constituinte da nossa cultura e de nós mesmos.

  1. Refiro-me ao fato de que vários intérpretes, festas e clubes noturnos têm se utilizado da alcunha do funk para se promoverem. O que percebemos é que esse funk (falseado) nem sempre corresponde ao chamado “funk carioca”, produzido em comunidades carentes do Rio de Janeiro e motivo das práticas colaborativas promovidas por Cabelo para a exposição em questão. Observa-se também que esse estilo musical utiliza bases distintas das usadas pelo “funk carioca”.
  2. Lembremos também que um dos produtos gerados pela exposição é um CD-catálogo contendo as músicas efetuadas em regime de colaboração entre Cabelo e os artistas convidados. 3 Cf. KESTER, Grant H. Colaboração, arte e subculturas, in Caderno Videobrasil 2, São Paulo, Associação Cultural Videobrasil, 2006, p. 31.

Felipe Scovino é professor da Escola de Belas Artes da UFRJ e da Escola de Artes Visuais do Parque Lage. atua como crítico e curador. é um dos curadores do Rumos Artes Visuais 2011-13. É autor dos livros Arquivo Contemporâneo (7Letras, 2009), Cildo Meireles (Azougue Editorial, 2009), Coletivos, em parceria com Renato Rezende (Circuito, 2010), e Carlos Zilio (Museu de Arte Contemporânea de Niterói, 2010). Foi ganhador da bolsa de estímulo à produção crítica (Minc/Funarte) em 2008.

Comments are closed.