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Mini Doc Fininho

Mini documentário da exposição “Cabelo apresenta: Mc Fininho e Dj Barbante no Baile Funk (Gentil) Carioca”, dirigido por Marcella Virzi e Bruno Vi,  produzido por Isabella Monteiro de Castro e premiado com o segundo lugar do concurso “Curta Criativo 2011” na categoria Documentário.

Ficha Técnica:

Direção: Marcella Virzi
Direção on set: Bruno Villela
Direção de fotografia e cinematografia: João Atala
Operador de Som: Bernardo Adeodato
Edição: Marcella Virzi
Produção: Camila Caiafa e Lucas de Andrade
Pós Produção: Max Coelho e Isabella Monteiro de Castro
Coordenação: Isabella Monteiro de Castro e Marcella Virzi

Breve história do funk carioca

Texto de Silvio Essinger publicado no catálogo da exposição Cabelo Apresenta Mc Fininho e Dj Barbante no Baile Funk (Gentil) Carioca. 

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Breve história do funk carioca

por Silvio Essinger

No começo, era o baile. Reunião de jovens cariocas diante de uma novidade: o funk. E naquela alvorada de anos 70, funk era o balanço selvagem, sujo, sexual e tão perigoso quanto sedutor, com que o americano James Brown arrastava corações, quadris e mentes mundo afora. Baile funk: ao invés dos couros, madeiras e cordas em que soavam o samba, potentes alto falantes das equipes de som trombeteando grooves para a felicidade da moçada de grana curta e disposição longa. Um tsunami black seguiu pelas linhas da Central, inundou subúrbio e baixada, e as vítimas até hoje comemoram: todo fim de semana, o baile funk ainda é, já é, demorou.

Ao longo do tempo, porém, a música dos gringos passou por sucessivas mutações – disco, discofunk, eletrofunk, hip-hop… novidades acolhidas sem grilos pelos Djs do baile. deglutido tal qual um bispo Sardinha que aportasse na praia de Ramos, esse som alienígena se incorporou então aos batuques e cânticos locais. E virou a música de uma cidade que nasceu no samba e se criou no ratatatá das metralhadoras. Virou o batidão, pancadão… a música do baile carioca – aquele baile que começou com Brown e entrou pelo novo milênio sem perder a alcunha funk.

Foi no final dos anos 80 que o grito da galera, a zoação com aquele refrão em inglês que ninguém entendia, virou produção. Doo wah diddy diddy dumm diddy do, mandava o MC americano de um lado, em disco. Do outro, em viva voz, a massa devolvia: mulher feia chupa p* e dá o c*. Sem pecado e sem juízo. O Dj copiou os beats, amenizou a letra (“cheira mal como urubu”) e botou no baile: nascia a “Melô da Mulher Feia”, primeiro sucesso do Funk brasil (carioca de origem).

A mensagem correu cidade e bateu nas favelas. Com armamento importado – solta o Volt Mix, Dj! – os meninos que se sacudiam e berravam nos bailes saíram apavorando: fizeram raps para contar de onde eram, como viviam e o que queriam. O baile tocou e eles fizeram mais. Um dia, o Rio inteiro tomou conhecimento de que a felicidade poderia ser encontrada lá, onde há muito ela parecia ter sido banida. “Eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci. E poder me orgulhar. E ter a consciência que o pobre tem seu lugar” (“Rap da Felicidade”, de Cidinho e doca, MCs da Cidade de deus). o funk demorou, mas abalou.

O Rio ouviu, o brasil ouviu. E dançou. Mas a violência no local é que ganhou as manchetes: brigas, arrastões, maus modos, um barulho que não deixava a vizinhança dormir… o funk encarnava tudo isso, como se fosse possível um gênero musical ser culpado por tudo que havia de errado na Cidade Maravilhosa. Enquanto isso, poucos se davam conta de que uma revolução cultural estava em curso. uma revolução marginal, sem registro, na chamada cultura oficial.

Mesmo assim, com mais manchetes nas páginas policiais do que no caderno de espetáculos, o funk não se intimidou. Falou de amor, de festa e da nem sempre bonita realidade da favela. Inspirou danças impossíveis. Pilhou a música pop da juventude classe média, as cantigas de roda dos avós, os disquinhos de faroeste sertanejo (Jack Matador!), a percussão dos terreiros de umbanda… e chegou ao ano 2000 com uma cara própria, pronto para outras invasões.

Quem viveu, viu. o Bonde do Tigrão abrindo o caminho para os jovens sarados da favela exalarem sensualidade. Tati Quebra-Barraco dando o troco aos MCs machistas. Mr. Catra misturando sexo, religião e consciência política com autoridade e voz de trovão. Serginho e o saudoso Lacraia desafiando estereóti- pos sexuais, com humor de piada de salão. Leozinho fazendo todo mundo dançar com suavidade. E o Créu botando tudo pra f* em cinco velocidades.

Hoje, funk é som, luz, dança, tese de mestrado, fonte de renda, problema com a polícia e sucesso na Europa (afinal, que Dj alemão resiste à pressão de seus beats feitos na raça?). É mulher fruta, tiração de sarro na internet, curtição da lourinha paulistana, trilha de videogame e tema dos programas de debates na tv. No país onde tudo acabava em samba… hoje o funk é que tem a resposta. pena que James Brown não está mais aí pra ver no que deu aquela sua semente.

Silvio Essinger foi repórter e crítico musical do Jornal do Brasil, redator da revista Manchete e editor do site Cliquemusic (www.cliquemusic.com.br), especializado em música brasileira. Colaborou com as revistas Billboard, Vizoo, Veja Rio, Trip, Vogue Rg, Personnalité, Outracoisa, Bizz, Oi, entre outras. Na Tv Globo, colaborou com o programa Por Toda Minha Vida. É autor dos livros Punk: anarquia planetária e a Cena brasileira (Editora 34, 1999), Batidão: uma História do Funk (Record, 2005) e Almanaque anos 90 (Agir, 2008). Participou, ao lado de Sérgio Cabral, Ruy Castro, Nei Lopes, João Máximo e Hugo Sukman, do livro de ensaios Canções do Rio (Casa da palavra, 2009). Em 2005, organizou o Baú do Raul Revirado (Ediouro), coletânea de textos de Raul Seixas.

A vida é refrão

Biografia fictícia de MC Fininho escrita por Frederico Coelho para o catálogo da exposição Cabelo Apresenta Mc Fininho e Dj Barbante no Baile Funk (Gentil) Carioca.

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A Vida É REFRÃO

por Frederico Coelho

Respeitável público, não é todo dia que conhecemos a história de alguns personagens subterrâneos da cultura carioca. Nesta exposição, Cabelo e a Gentil Carioca apresentam um pouco da vida e obra do inesquecível anti-herói MC Fininho. Fininho, rapaz de bem, corpo fechado, cordão de ouro, nada no bolso ou nas mãos e tênis colorido da moda, é um dos principais articuladores dos graves e das quadras em que nasceram e reinam até hoje os bailes funks da cidade. Foi MC Fininho, ainda em 1983, quem trouxe debaixo do braço, após uma viagem kamikaze aos EUA para embarcar na nave espacial anunciada por George Clinton, o compacto com “Planet Rock”. Era Fininho, moleque-prodígio, quem puxava a fila do Lado b nos primeiros bailes da Villa Lage, berço dos seus camaradas da Pipo’s e, no dia seguinte, almoçava canjica nas rodas de jongo do Morro da Serrinha. Conhecedor de todas as quebradas e rádios comunitárias, Fininho vagou por lares, famílias e equipes de som como um nômade do funk, espalhando a palavra, aprendendo o esperanto das ruas e transformando a sua história e a história da música mundial. Fininho também marcou presença em rádios piratas dos anos oitenta cantando milhares de vezes, a pedidos dos ouvintes, as primeiras versões de funk nacional gravadas com Dj Barbante, além de criar expressões clássicas como “tô bolado” e “não tem caô” e professar os primeiros ensinamentos sobre o Miami Bass das quadras do Alemão à Praça Seca.

Dizem que Fininho não aparece em fotos ou entrevistas desde os chamados arrastões de 1992. Na época, sua imagem ficou marcada nas manchetes de jornais como o líder do bonde que vinha quicando sobre o 474 nervoso, lotadão, com geral cantando a melô da mulher feia. Depois desse incidente que estigmatizou para sempre os funkeiros cariocas, Fininho sumiu no mapa e sua biografia tornou-se obscura. alguns dizem que foi justamente nessa época que Fininho conheceu Cabelo, jovem estudante universitário, agitador cultural que morava em Copacabana e pegava onda na praia com a rapaziada do Pavão. Cabelo conheceu Fininho nas peladas de fim de tarde do verão e a empatia foi imediata. Cantavam Almir Guineto e debatiam sobre qualquer assunto esotérico falando alto e rindo muito. Foi Fininho quem sugeriu a Cabelo o mote de seus primeiros versos e a ideia de fazer música e artes visuais como um sonho possível de se viver. Fininho mostrou a Cabelo que o precário é potente, que pouco pode ser muito, que a massa fervia o caldo nas ruas e que quando o bonde forma, a vida não embarrera.

Em 1999, porém, o silêncio e o exílio de Fininho dentre os bailes e o tráfico de MPCs na rota Detroit-Taquara-Luanda foi interrompido. Com a abertura da CPI do Funk na assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, Fininho foi convocado como um dos principais depoentes. Sua fala era esperada por todas as autoridades e emissoras, pois lendas urbanas atribuíam a ele a chave da história secreta do Funk, desde a fundação da Soul Grand Prix até a concepção do Bagulhão da ZZ discos, desde a dica para o sampler de “Jack Matador” até a sugestão de “Marlboro” como nome artístico de um Dj do Lins Vasconcellos. Sua aparição foi marcada por forte assédio da imprensa, mulheres com crianças nos colos reivindicando exames de paternidade e dançarinos do Clube Renascença prestando solidariedade ao velho amigo e mestre. Seu depoimento foi enigmático, todo feito em língua de congo, TTK e gíria do baile do Chaparral. disse ainda que seu pai usou o parangolé Incorporo a Revolta no MAM-65 e que guardava de memória os elogios das grãs-finas para a paterna performance de vanguarda que rompia com os padrões estéticos defendido pelo livro de Ferreira gullar. “Ali”, disse Fininho, “decidi que minha missão era fazer todos dançarem”. Perguntado se não tinha medo de carregar uma biografia tão pesada e obscura, Fininho disse o seu bordão mais inesquecível, aquele que marca até hoje gerações de intelectuais e moleques de rua: “amigo, não se liga na letra toda porque a vida é refrão!”. Após sua participação bombástica negando-se a entregar os “poliça” que liberavam o corredor no Bandeirantes da Taquara e os “trafica” que bancavam o transporte da galera do cerol, a CPI foi arquivada por falta de provas e pelo clamor público pedindo a liberação dos bailes. Fininho saiu da Assembléia Legislativa e sumiu da vista de todos ao entrar em uma van que ia para Cocotá, Cacuia e Bananal.

Nessa altura, Cabelo já era um artista conhecido e dividia seu ateliê com Fininho, que tinha seu estúdio de baixa tecnologia movida pela falha magnética de Santa Clara Poltergeist e pelos graves estrondosos que o baile do Pavão aplicava nas paredes dos prédios de Copacabana, região do Sáfeganistão. As trocas estéticas entre os dois fizeram com que Cabelo compusesse raps e Fininho resgatasse através de objetos e desenhos as suas raízes da infância nos botecos do Morro do Esqueleto, ouvindo a lenda da Morte do Le Coq e os mais de cem buracos de bala do Cara de Cavalo. passou a estudar teoria da arte e propôs uma revolução filosófica no Funk ao começar a compor suas letras após imersões em semanários de notícias, conversas entre trocadores de ônibus e longos trechos de Catatau, o cartesianismo tropical de Leminski.

O fato é que, contraditoriamente, o século XXI e todo o impacto verbovocovisual que a internet e a cultura digital nos trouxeram foi muito forte para Fininho. profeta do sampler e das montagens, orador do pancadão pós-estruturalista, nosso herói não se adaptou ao espaço de estrelato que antropólogos, musicólogos e filósofos destinavam para ele. Num dia de sol, Fininho disse que ia lavar o carro na rua e sumiu nas sendas e vielas do IAPI de Olaria, último lugar em que testemunhas o avistaram. Dizem alguns que a simbiose entre Fininho e seu parceiro Cabelo foi tão forte que um tornou-se um pouco o outro e vice-versa, não podendo mais ser afirmado onde começava as ideias do artista e terminava as do funkeiro. Após Fininho ter saído de cena, Cabelo criou em exposições no exterior e ao redor do brasil, uma série de personagens para, quem sabe, disfarçar a presença marcante do seu parceiro-alterego em sua vida e obra. Hoje, a pergunta que fica para todos é quem é o criador e quem é a criatura. Pergunta que Cabelo nunca responderá, provando que a influência de Fininho na cultura musical e visual carioca não pode ser contida nem deve ser calada pela crítica e pelos historiadores da arte. Que os funks de Fininho e as obras de Cabelo apresentadas pela primeira vez em conjunto nesta exposição da Gentil Carioca possam elucidar – ou aumentar – esta encruzilhada que ambos nos convidam a cruzar. Porque nunca é demais lembrar que, para Cabelo e Fininho, o papo é reto, a missão é sinistra e o bagulho é neurótico.

Este texto é dedicado a Fausto Fawcett e Silvio Essinger

Frederico Coelho é pesquisador, ensaísta, professor. Escreve e dá aulas sobre cultura brasileira, publicou trabalhos em revistas e jornais como Errática, Margens, grumo, Vogue, Sibila, Minotauro e atual. Lançou os livros Encontros – Tropicália com Sérgio Cohn (azougue), Eu, brasileiro, confesso minha culpa e meu pecado (Civilização brasileira), Livro ou Livro-me: os escritos babilônicos de Hélio oiticica (EduERJ), Coleção Circuito -dJs, com Joca Vidal (Circuito) entre outros. é professor de Literatura da PUC-Rio e assistente de curadoria do MAM-RJ. publica textos esparsos no blog www.objetosimobjetonao.blogspot.com e é dJ da Festa pHunK!

Vida = Arte

Texto de Felipe Scovino publicado no catálogo da exposição Cabelo Apresenta Mc Fininho e Dj Barbante no Baile Funk (Gentil) Carioca.

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Vida = Arte

por Felipe Scovino

As práticas colaborativas e coletivas têm sido uma constante nas últimas duas décadas, devido sobretudo a um sintoma das artes visuais: a sua capacidade de repensar e requalificar a todo instante suas posições estéticas e políticas. Se por um lado as artes visuais avançam na formatação de diálogos com outros territórios e disciplinas, por outro tende a atravessar fronteiras e pôr em dúvida as articulações e aparições provenientes de suas próprias experimentações. Chamo a atenção para esse último ponto, porque nessa exposição estamos diante do trabalho de um artista que sempre dialogou de forma harmônica entre dois campos artísticos (a música e as artes visuais) estabelecendo mais pontos de contato do que diferenças, e de um curador, que apesar de ter um trabalho sólido como artista nunca se privou de atividades de exercício da crítica (cito como exemplo sua passagem como editor das revistas item e o Carioca).

Apesar de muitas dessas citadas práticas incluírem colaborações entre artistas, essa exposição envolve um projeto onde artistas colaboram entre si em torno de uma cultura que sofre movimentos pendulares quanto a sua exibição midiática e de revalidação cultural para os, digamos assim, menos afortunados. O funk, apesar de nos últimos anos ter deixado a periferia para ser meio e produto, por exemplo, de grandes organizações publicitárias e televisivas, ainda é objeto de preconceito (como já dizia MC Marcinho em Som de preto: “é som de preto/de favelado/Mas quando toca ninguém fica parado”). É curioso que MC Fininho, o alter-ego de Cabelo (por sua vez um apelido), usa do conceito de espetáculo para erigir um show/disco/performance musical onde se manifestam modelos tangíveis de sociabilidade e de um modo de produção que apesar de ser artesanal, precário, com ares de gambiarra, é potente e – ambiguamente – sofisticado, dois campos que são fortemente anunciados e demarcados na cultura funk, e que por conta desse processo de diluição comercial e publicitário1, tendem a serem perdidos ou deslocados, culminando no que poderíamos definir como possibilidade de perda gradativa da “aura do funk”. MC Fininho e seus colaboradores de certa maneira impõem a “velha ordem do funk”, ou um processo identitário que estaria mais próximo daquilo que cerca a ideologia e produção dessa cultura: o baile organizado para a abertura da exposição cria um mecanismo que ultrapassa a reificação das relações sociais, nos deixando a par de uma estrutura plural, polifônica e altamente potente, assim como se configura o funk.

A expressão “pôr em dúvida” que escrevi nas primeiras linhas refere-se, nesse contexto, a um artista se deslocando em direção a um personagem, e um baile que a todo o momento prescinde de ser cenário ou teatralidade para se colocar como a figura central da exposição.2 A pergunta que MC Fininho faz – como viver juntos e nos alimentarmos dessas diferenças? – nos desloca para outro território: o baile, seus convidados e imagens devem ser lidos a partir de uma perspectiva onde o artista se colocou não como “artista político” mas sim, como um artista que “faz arte politicamente”. É curioso que o baile em nenhum momento nega a condição de cultura de consumo, propaganda ou entretenimento – acusações que as próprias artes visuais sofrem – do funk. Esse aspecto da sedução é acentuado a todo o momento. porém, há uma diferença radical ao adotar essa postura. trazer a cultura da periferia para o mercado de arte não com uma embalagem espetaculosa, mas como o espetáculo que ela sempre foi. Sem falsas maquiagens e discursos acéfalos, nem representando da maneira mais ingênua e fácil as articulações e manifestações do funk, MC Fininho expõe as entranhas de uma cordialidade, de um funk talvez agressivo no discurso e na exposição de uma ideia de mundo mas profundamente sensível e afetuoso na formação desse corpo colaborativo. É nessa dubiedade entre a imagem que se faz dele e o que real- mente o funk expressa, que MC Fininho constrói e organiza seu arsenal imagético. os objetos expostos não são formas para se entender a canção ou produções “literais” daquilo que está sendo ouvido, mas a composição de uma rede, de um diálogo intermitente entre som e imagem, ou entre objeto e imaterialidade.

Se pensarmos numa função para a arte, ela reside precisamente na sua habilidade de desestabilizar e criticar as formas convencionais (ou distorcidas) de representação e identidade. Portanto, ficam evidentes nas ações colaborativas de MC Fininho (ou Cabelo) que a arte não tem, de fato, qualquer conteúdo positivo, mas é o produto de uma forma intensamente somática de conhecimento, visto que projetos como esse “nos desafiam a reconhecer novos modos de experiência estética e novas grades para pensar a identidade através de trocas densamente texturizadas, hápticas e verbais que ocorrem nos processos de interação colaborativa.” 3 O baile de MC Fininho nos convida a perceber o modo como dialogamos e vemos o outro, como reprocessamos a diferença a nosso modo, além de nos chamar a atenção para a própria troca como práxis criativa e elemento de câmbio social. Curtir o baile, portanto, é conviver com diferenças, constituir a nossa subjetividade, e num misto entre utopia e desejo, moldar um mundo melhor. Talvez de modo intuitivo já soubéssemos disso, mas nessa exposição fica evidente a proposta de tornar aparente que a manifestação e apropriação da diferença é parte constituinte da nossa cultura e de nós mesmos.

  1. Refiro-me ao fato de que vários intérpretes, festas e clubes noturnos têm se utilizado da alcunha do funk para se promoverem. O que percebemos é que esse funk (falseado) nem sempre corresponde ao chamado “funk carioca”, produzido em comunidades carentes do Rio de Janeiro e motivo das práticas colaborativas promovidas por Cabelo para a exposição em questão. Observa-se também que esse estilo musical utiliza bases distintas das usadas pelo “funk carioca”.
  2. Lembremos também que um dos produtos gerados pela exposição é um CD-catálogo contendo as músicas efetuadas em regime de colaboração entre Cabelo e os artistas convidados. 3 Cf. KESTER, Grant H. Colaboração, arte e subculturas, in Caderno Videobrasil 2, São Paulo, Associação Cultural Videobrasil, 2006, p. 31.

Felipe Scovino é professor da Escola de Belas Artes da UFRJ e da Escola de Artes Visuais do Parque Lage. atua como crítico e curador. é um dos curadores do Rumos Artes Visuais 2011-13. É autor dos livros Arquivo Contemporâneo (7Letras, 2009), Cildo Meireles (Azougue Editorial, 2009), Coletivos, em parceria com Renato Rezende (Circuito, 2010), e Carlos Zilio (Museu de Arte Contemporânea de Niterói, 2010). Foi ganhador da bolsa de estímulo à produção crítica (Minc/Funarte) em 2008.

ratobranKo post #1

No dia 4 de junho de 2011 a galeria A Gentil Carioca, inaugurou a exposição Cabelo Apresenta Mc Fininho e Dj Barbante no Baile Funk (Gentil) Carioca, com obras do artista Cabelo e curadoria do artista Raul Mourão. Para celebrar a abertura da exposição foi organizado um baile/show que contou com a discotecagem dos Djs Artur Miró, Saens Peña, Nado Leal e Alex MPC além de apresentações ao vivo do Mc Fininho e convidados. Essa exposição marca o nascimento da Rato Branko produções, laboratório experimental dos artistas Raul Mourão e Cabelo e por isso o blog ratobranKo inicia sua vida postando textos, videos e fotos da exposição.

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É Tudo Mentira

por Raul Mourão

É tudo invenção da cabeça do Cabelo. Mc Fininho não existe na vida real, é um personagem fictício, funkeiro ancestral, animador de bailes, pesquisador musical, antropólogo das biroscas, repórter das vielas e florestas e compositor de funks. dJ barbante, seu parceiro, assistente e responsável pelas bases musicais, não existe também. é um personagem coringa que esconde os inúmeros parceiros. É tudo ficção. Cabelo saiu de sua cabeça e deixou entrar Fininho, que depois tomou conta de seu corpo também. pessoas diferentes habitando a mesma mente. troca de personalidades, caboclos, entidades, espíritos do além, forças do bem.

Na verdade a ideia da exposição funk-carioca de Mc Fininho e Dj barbante n’a Gentil começou no Cabidinho, bar 24hs que não fecha não na esquina da Mena com a Paulo Barreto. Era um grupo grande e animado ocupando algumas mesas depois da exposição do Afonso Tostes na Lurixs, Cabelo me contou que tinha uma data marcada na gentil e que queria injetar música na exposição. Partimos para a Lapa com Dado Amaral no carro para uma apresentação-relâmpago do saudoso grupo Boato. No bar Arco Íris Cabelo retomou a conversa sobre a exposição na Gentil e sugeri que ele incorporasse Mc Fininho ao repertório. Cabelo respondeu enfático: “Vamô fazê” _ e no dia seguinte esquecemos do assunto. 2 dias depois a ideia da exposição de Mc Fininho e Dj Barbante me voltou com força, liguei e convoquei Cabelo para debatermos o assunto. Nos encontramos no ateliê dele na Souza Lima na segunda dia 2 de maio e também na terça.

Matutamos e matutamos e ficou decidido que Frederico Coelho escreveria a biografia não autorizada, Felipe Scovino um texto crítico e Silvio Essinger faria uma palestra com trilha sonora sobre a breve história do funk carioca e nos deixaria também um texto. 11 parceiros seriam convocados a compor funks a partir de letras do Mc Fininho. Uma exposição com as coisas, sons e pensamentos de Fininho ocuparia a Gentil dividindo o espaço em 2 ambientes: a Caxanga de Fininho (lar/morada/dormitório/sala de estar) e o Estúdio Área de Lazer (onde o Mc grava suas músicas, recebe amigos e organiza pequenas festas). Na inauguração da exposição um grande baile/show em homenagem ao funk carioca na rua em frente à Gentil. Farra e festa. E provocação e nonsense. No final da terça, 3 de maio, começou um jogo novo e aberto, com poucas regras e muito improviso.

Os dias se passaram com o relógio em contagem regressiva atazanando nossa rotina. Um pavio curto e aceso com uma bomba no final. 11 funks produzidos em 1 semana no estúdio Jaula do Vampiro, do Rafael Rocha, no Monouaural, do Kassin e do Berna, e no computador de cada parceiro. As músicas chegaram por email. Versões, letras, correções. imagens, Aninha Tsunami, um coelho pernambucano gravador de vozes, compassos e descompassos, BPMs por telefone, arquivos wav, microfones, reverbs, dubs e cachaça. O funk ganhou vida e forma. Virou real num território de fantasia pura. Depois chegou a hora das pinturas, desenhos, objetos e fotografias. Mete tudo na kombi e parte pra gentil. Uma parede vermelha e outra preta, um desenho luminoso aparece na última hora, uma televisão toca funk (telefunken?), máquina de fumaça, cartaz lambe-lambe, fotografias da dani dacorso, o vídeo documentário “Favela on blast”, do Leandro HBL, e o “Cante um funk para um filme”, do Emílio domingos e Marcus Faustini.

Sempre enxerguei fúria, raiva e violência na obra do Cabelo. Agora vejo graça, humor, festa e farra, e também raiva e fúria como sempre. Divirtam-se com a exposição de Cabelo/Fininho/Barbante. Celebração da vida, do afeto, da alegria e contra a arte pobre, chata e medíocre que assola e emburrece nosso tempo.

PS.: Fininho manda avisar que o bagulho está só começando. ano que vem vai rolar o primeiro Festival Fininho de Funk Carioca, a Tv Fininho transmitindo 24hs de funk, disco na praça, músicas no rádio, shows pela cidade e os produtos de cama, mesa e banho…